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Violência contra animais é rotina

LUCAS MELONI

A advogada Karina Pirillo, de 43 anos, presidente da organização não governamental (ONG) Adote Já, defende uma ampla campanha de conscientização, mudanças na legislação sobre os maus-tratos a cães e gatos. Ela considera omisso o trabalho do Centro de Controle de Zoonoses Municipal na busca de um melhor atendimento a essa questão. Por dia, a entidade recebe cerca de 80 denúncias de violência, grande parte de animais atropelados.

Criada há 15 anos, a ONG funciona na Rua Duarte de Freitas, 246, na Vila Oliveira. Karina é também proprietária do Pet Shop Vira-Lata, onde realiza ações para minimizar a falta de abrigos municipais, com a realização de uma feira de adoção, todos os sábados.

A paixão pelos bichos começou na infância, quando tentava recolher das ruas animais em estado de abandono. Com o passar dos anos, esse desejo transformou-se em realidade. Hoje, ela possui 20 cachorros em casa.

Grande parte das denúncias é feita pelo telefone (4796-2102) por pessoas que esperam o resgate dos bichos, a maioria vítima de atropelamentos.

Defensora da ação de políticas públicas de controle da população canina, Karina acredita que uma ampla campanha de conscientização sobre a posse responsável nas escolas, o reforço da castração gratuita, legislação municipal, estabelecendo pesada multa ao proprietário flagrado cometendo violência contra os animais, e a criação de uma Coordenadoria de Bem-Estar Animal seriam soluções eficazes para as atrocidades contra os animais. Eis a entrevista concedida por Karina:


Como a ONG está atuando no caso dos cães abandonados na Favela do Cisne e no Distrito de Jundiapeba após a transferência das famílias para as novas moradias?

Muita gente me ligou para recolher esses animais. Mas, na verdade, o que nós temos é uma omissão do setor de Zoonoses da Cidade. A Lei do Feliciano (Lei número 12.916/08, de autoria do deputado estadual Feliciano Filho) impede que se faça a eutanásia em cães sadios. Por causa disso, a própria Zoonoses Municipal achou melhor não recolher esses cães de rua porque não poderia fazer nada com eles. Mas, neste caso, a ONG já tinha alertado o Poder Público de que isso iria acontecer. Eram 80 famílias que seriam removidas e alguns animais ficariam para trás. O problema é que a nossa ONG não tem recolher todos os cães, já temos uma demanda normal muito grande.

A Câmara Técnica representa um avanço nesta discussão?

Na verdade, não. O prefeito a instalou com a intenção de ser um avanço, mas, infelizmente, isso não aconteceu. O problema é que o grupo não é deliberativo, as pessoas acompanham tudo de longe, sem opinar. O ideal seria a criação de uma Coordenadoria de Bem-Estar Animal que desse voz a todos. Com este grupo seria mais fácil idealizar projetos, discuti-los entre protetores e pessoas em geral e, depois, encaminhá-los à Câmara Municipal para votação.

Em que estado os animais são levados até a Adote Já?

Os cães sofrem diversos tipos de maus-tratos. Temos uma cachorra, sem raça definida, que foi ferida por fogo de artifício em meio aos festejos deste Ano Novo. Ela passou pela Zoonoses e eu consegui tirá-la de lá, caso contrário teria sido sacrificada. Agora, ela vai para um hotel para ser tratada e depois, daqui uns dois meses, retorna para que seja adotada. Mas os casos que chegam são dessa natureza ou piores ainda. São quase 80 denúncias por dia, grande parte pedindo resgates. A nossa capacidade é para até 30 animais. Cães e gatos atropelados ou com algum tipo de ferimento são a maioria. Nós tomamos conhecimento dos casos por meio de denúncias. A nossa prioridade é para animais que, se forem pegos pela Zoonoses, podem ser sacrificados. Por exemplo, eu estou aqui também com dois gatinhos encontrados dentro de um saco de lixo. Infelizmente é o estado de muitos que chegam aqui, além das cachorras com filhotinhos deixados na rua.

Quanto tempo, em média, eles são encaminhados para a adoção?

Os filhotes são mais fáceis de sair, demoram semanas ou meses. Mas os adultos ficam um ou dois anos na espera até que apareça alguém que os adote. Há cinco anos, todo sábado, das 10 às 15 horas, a gente realiza uma feira de adoção. A ideia surgiu por conta do alto número de animais que chega até nós, mais de 120 por mês. Por sábado, são doados de 30 a 40 animais.

O principal problema é a falta de espaço para ampliar esse atendimento?

Sim, para ter noção, tem dia que quase 30 pessoas entram aqui com um animal no colo precisando de lugar para deixá-lo. É um número muito alto.

Quantos animais em estado de abandono estão pelas ruas de Mogi?

Entre 10 a 15 mil.

Neste período de passagem de ano e férias algumas pessoas costumam viajar e deixar cachorros e gatos sozinhos em casa, ou abandoná-los nas ruas. O que pode ser feito para evitar casos assim?

Isso é um crime. As pessoas precisam denunciar. Só aqui na ONG nós temos um aumento de 70% nas chamadas de pedidos de resgate nesta época. Qualquer pessoa que identificar algum caso assim pode denunciar na ONG ou em algum órgão público para que o responsável seja punido. Infelizmente, faltam punições mais severas. Eu, inclusive, enviei um projeto ao prefeito na semana passada sugerindo um projeto de lei, aprovado em Natal, no Rio Grande do Norte, que estabelece multa de R$ 2 mil para quem é encontrado maltratando animais. Pela legislação, as sentenças hoje se resumem à distribuição de cesta básica ou ao desenvolvimento de um trabalho voluntário. E só, feito isso, o malfeitor já está em liberdade. Isso é muito pouco.

Quais seriam as soluções para o aumento do abandono de animais?

Nós, da Adote Já, acreditamos na conscientização, a partir das crianças. É algo para ser desenvolvido a longo prazo com palestras em escolas. As campanhas de castração são outra opção. Sem a castração, não adianta. Uma gata e seus descendentes, em cinco anos, geram 68 mil gatos. É realmente algo a longo prazo, coisa para se ter resultados em 10 anos. E nós já havíamos alertado a Prefeitura há 10 anos sobre a realidade que vivemos hoje.


Fonte: O Diário - Publicado neste site em 11/01/2012